Na Mira do Regis

Fiasco de festival de heavy metal expõe ao mundo desrespeito e amadorismo no Brasil

Durante o último final de semana, recebi centenas de mensagens por e-mail e pelas redes sociais pedindo que eu comentasse tudo o que aconteceu no Metal Open Air.

O que deveria ter sido um dos maiores festivais de heavy metal da história brasileira — ainda mais por acontecer em uma capital totalmente fora do circuito de grandes shows internacionais, como é o caso de São Luís (MA) - acabou se tornando um 'mico internacional' por conta de sua estrutura pateticamente precária, do misto de desorganização/má-fé/arrogância de seus produtores e, principalmente, pela total ausência de profissionalismo e respeito em relação ao público.

Isto levou ao cancelamento das apresentações de 2/3 das bandas nacionais e internacionais escaladas, como Saxon Anthrax, Venom, Blind Guardian, Grave Digger, aquele "Rock n' Roll Stars" capitaneado pelo Gene Simmons, Ratos de Porão, Matanza e muitos outros. O terceiro e último dia do festival sequer aconteceu, já que toda a estrutura de som e palco começou a ser desmontada no dia anterior, no meio do evento, algo inacreditável para quem lida com eventos com um mínimo de seriedade.

Como não estive presente ao evento e sequer acompanhei alguma matéria decente a respeito de toda a confusão por parte das emissoras de TV, tudo o que você vai ler aqui foi baseado nas informações que levantei com fontes fidedignas, que estavam lá e presenciaram algo que parecia uma mistura de marcha de zumbis com procissões de devotos de algum hipotético "deus do heavy metal".

Confesso que mesmo defendendo a tese de que todo fã é um idiota, fiquei imensamente consternado ao ver fotos e imagens de headbangers no local do evento, um tal de Parque da Independência, escovando os dentes e tomando banho em gigantescos bebedouros para animais, armando suas barracas de camping no meio das fezes, dentro de um estábulo. Para quem vivenciou isto, deve ter sido uma humilhação inesquecível...

Este fiasco será lembrado por muito tempo como um exemplo do que não fazer na hora de organizar qualquer evento de qualquer porte. Para se ter uma ideia do caos causado pela irresponsabilidade das duas empresas envolvidas no evento, o pessoal que trabalharia nas barracas de alimentação abandonou o evento logo no primeiro dia, muita gente entrou no local sem ingresso e com garrafas de vidro, algo totalmente proibido em eventos deste tipo. Nos estábulos e por todo o local dos shows proliferavam 'gambiarras' elétricas, daquelas que poderiam causar um curto-circuito a qualquer instante e matar todo mundo eletrocutado.

Não havia segurança revistando as pessoas — toda a equipe foi embora logo no primeiro dia por falta de pagamento. Quem quisesse poderia ter entrado armado no evento e não teria sido barrado. Muita gente foi roubada — uma grande quantidade de carteiras vazias foi encontrada no chão após o show do Megadeth na sexta feira. As pessoas ficaram sem banheiro, sem água e sem comida. Tem gente que ainda está lá acampada, sem ter como voltar para suas casas, pois foram furtadas dentro do próprio "camping" lotado de insetos e fezes de animais.

Foi preciso que uma equipe do Órgão de Defesa do Consumidor do Maranhão conseguisse a doação de sanduíches por parte de um supermercado local para que as pessoas que lá ficaram — porque tiveram dinheiro e documentos furtados durante o festival - pelo menos comessem um lanche antes de voltar para seus Estados, como se fossem indigentes recém libertados de um campo de concentração. Um absurdo total!

Como é que estes produtores acharam que poderiam fazer um festival com QUARENTA bandas sem ter a mínima condição financeira para isto? Como foi possível alguns zé-ruelas pensarem em viabilizar um troço destes sem grana para tal? Um destes produtores chegou a postar no Twitter a delicada mensagem "vão se foder" para aqueles que criticavam as péssimas condições no evento logo no primeiro dia. Só que o fracasso do evento agora faz com que seus organizadores joguem a culpa uns sobre os outros, buscando se livrarem das acusações.

O fato de que até agora nenhum dos envolvidos na produção desta patuscada tenha vindo a público esclarecer a maneira como o dinheiro de quem pagou será devolvido faz crer que quem esteve presente vai ter uma dor de cabeça desgraçada para ser ressarcido não apenas em relação ao que gastou, mas ao dano moral sofrido com as condições degradantes lá encontradas.

Fiquei até mesmo espantado em ver que uma das empresas, que promoveu também a apresentação de algumas das bandas do MOA em São Paulo, fez uma 'promoção' para os shows na capital paulista: quem se apresentasse com a pulseira do festival poderia trocá-la por um ingresso para assistir Blind Guardian, Grave Digger e Shaman no Credicard Hall. Precisa ser muito otário para engolir esta proposta, já que, com isso, o usuário se livraria de uma prova importante que pode ser anexada a um futuro processo contra esta mesma empresa. Sem contar os três shows horrorosos, mas isto já é outra história...

Os organizadores simplesmente soltaram "notas de esclarecimento e desculpas" pela imprensa e sumiram, a ponto de sequer terem sido localizados pelo Ministério Público, que tem a obrigação de abrir um inquérito civil e outro policial para cancelar os registros destas duas produtoras — a saber: Lamparina e a Negri Concerts — e também para que respondam por crimes contra o consumidor e estelionato. E que cada pessoa lesada entre com ações individuais contra estas empresas e seus proprietários/sócios. Os responsáveis por isto não podem mais atuar no mercado. Simples assim.

E que ninguém venha com o papo preconceituoso de que o festival naufragou porque foi feito no Nordeste, no Norte e o escambau a quatro. Estão aí os festivais Abril Pro Rock e Se Rasgum, que rolam naquelas regiões há muitos anos com uma organização que beira o impecável - os dois produtores do MOA são da região Sudeste, um paulista e outro carioca. E mais uma coisa: o Brasil definitivamente se tornou uma confiável — e rentável — rota de shows internacionais, e não vai ser uma trapalhada deste porte que vai atrapalhar a vinda de atrações para cá.

O fato de grande parte das bandas terem cancelado suas apresentações só evidencia o caráter profissional de cada uma delas e a tenebrosa realidade de quem tem que lidar com produtores picaretas o tempo todo. Algumas bandas nacionais que se apresentaram — Almah e Shaman, por exemplo - tocaram de graça. Isto mesmo: de graça! Por quê? Para ficarem 'de bem' com o público, com sites e revistas especializadas, produtores? Para mim, isto é inconcebível...

Onde estão agora os arautos da defesa do heavy metal nacional neste momento, notadamente os senhores Thiago Bianchi e Edu Falaschi, vocalistas do Shaman e Angra/Almah respectivamente, que não se cansam de ofender os fãs do estilo e a nossa inteligência em geral com declarações patéticas? Onde estão as revistas, blogs e mídias ditas 'especializadas' para comentar as barbaridades que lá ocorreram? Ou ninguém quer escrever e falar nada com medo de perder credenciamentos para futuros shows que venham a ser promovidos pelas empresas em questão — se é que as mesmas continuarão a existir depois do MOA. Espero que esta turma não venha com os papinhos "pelo menos as pessoas lá viram algumas bandas internacionais", "mal ou bem, o evento aconteceu" ou "quem critica está torcendo contra a cena do metal nacional" e outras babaquices.

Fiquemos todos atentos para ver quem vai ficar em cima do muro e - pior - e se omitir nesta história...

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