Na Mira do Regis

Menina “blogueira da Capricho” acredita em um mundo que não existe mais

Ontem fui o dia inteiro bombardeado por links que remetiam a um post no perfil de Facebook de uma menina linda, chamada Giovanna Ferrarezi. Leitores de meus humildes textos aqui no Yahoo pediam que eu comentasse a respeito, todos indignados com a garota, que se diz “blogueira parceira da revista Capricho”.

Pois bem, resolvi ler o que a garota de uns 20 anos escreveu de tão grave, a ponto de ter se transformando em um “meme”, “viral” ou qualquer outro rótulo besta que acompanha qualquer merda feita nas redes sociais nos dias de hoje. Se você não sabe do que se trata, veja aqui o post que ela escreveu.

Como você sacou, ela usou o Facebook para reclamar, de maneira infantilmente indignada, contra aquilo que julgou ser um tratamento inadequado por parte de uma casa noturna em São Paulo quando tentou entrar de graça dando a famosa “carteirada”.

Li o texto da menina, li as mensagens que recebi de leitores indignados, percebi o quanto o episódio iria render nos Twitters da vida, li até os comentários do referido post no perfil da própria Giovanna. E cheguei a algumas conclusões...

A primeira delas é que eu aposto dois CDs do Bob Dylan, uma garrafa se suco de maracujá e uma garrafa térmica que 87,5 % das pessoas que se mostraram indignadas com a menina são as mesmas que usam carteirinha de estudante falsificada para entrar em qualquer lugar que cobre ingresso, que não respeitam a faixa de pedestre, que não levantam a bunda do assento do metrô para dar o lugar a uma senhora idosa e que pelo menos três vezes na vida tentaram fazer o mesmo que a tal Giovanna na porta de alguma “boate”.

Preste atenção, leitor ‘botocudo’: não estou defendendo a menina. Muito pelo contrário! A atitude dela foi deplorável em todos os sentidos – e já vou me ater a ela daqui a instantes neste mesmo texto. Mas a julgar pelo conteúdo da “indignação” das pessoas, ficou claro para mim que se tratou de um fenômeno cada vez mais recorrente nas redes sociais nos dias de hoje: a “lição de moral de plástico”, feita por gente que comete os mesmos erros denunciados, mas que buscar dar uma “trollada” básica para se eximir de seus próprios pecados e ainda posar de “paladino da moralidade”. Lamento, mas a mim vocês não enganam...

Com relação ao que a Giovanna escreveu, minha sensação foi de... pena. Sim, é isto mesmo. Cansei de ver gente tentando dar “carteiradas” em portas de shows e casas noturnas, a imensa maioria delas acompanhada de um comportamento cafajeste e um linguajar pouco condizente com a ocasião. Mas no caso dela, o próprio relato deu a real dos fatos: a linda Giovanna acredita que vive em um mundo que não existe mais. Calma, eu explico...

Já foi o tempo em que trabalhar em uma revista era um passaporte para abrir todas as portas de qualquer estabelecimento. O escárnio da hostess em relação ao atual estágio da Capricho denota isto de maneira inequívoca. Se Giovanna tivesse usado o mesmo expediente dez anos atrás, o tratamento seria completamente diferente: não só ela teria furado a fila, como também ganharia drinks de cortesia e seria bajulada a noite inteira pela equipe de funcionários da casa. Hoje, em que as revistas impressas vêm apresentando um peso editorial cada vez menos importante para o mercado e até mesmo para os próprios leitores, Giovanna teve o que mereceu: escárnio. Foi como se ela tentasse entrar em uma festa grã-fina usando um colar feito com dentes necrosados de um castor.

Você já parou para pensar em quantas revistas legais e influentes no Brasil e no mundo deixaram de existir nos últimos tempos? Bizz, Set, Melody Maker, Spin, Hit Parader, Circus, The Face e a Newsweek, por décadas considerada a segunda maior revista do planeta, atrás apenas da Time. Esta, por sua vez, sequer conseguir ser vendida por seus proprietários, já que não apareceu um comprador sequer. A internet matou todas elas, sem piedade.

O fato de Giovanna alegar ser “parceira da Capricho” também, chama a atenção para um fato que a maioria das pessoas desconhece: existe uma indústria do “blog amigo” generalizada na Internet. Principalmente quando os assuntos são “moda” e “dicas de beleza”. Conheço garotas que ganham uma grana considerável de determinadas marcas para que as mesmas sejam objetos de matérias e citações em seus respectivos blogs. Aí sim existe uma desonestidade explícita, já que estes textos “espontâneos” são anúncios disfarçados e referendados pela própria blogueira. Aí sim é trapaça. É a mesma coisa se uma gravadora pagasse a mim uma quantia em dinheiro para que eu escrevesse uma crítica positiva a respeito de um disco. Seria desonestidade total!

Giovanna também errou em não enxergar em si mesma o mesmo tipo de “poderzinho nas mãos" que viu nos funcionários desalmados. Pensou errado ao acreditar que “ser blogueira e parceira da Capricho” seja alguma credencial que lhe dê fama suficiente para furar uma fila, por menor que seja. Como é muito jovem, vai ter bastante tempo para pensar no que aconteceu e tirar do episódio algumas lições importantes. A questão é que tem MUITA gente com a minha idade que pensa e age da mesma maneira que a infantil Giovanna. Isto sim é um GRANDE problema...

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