Na Mira do Regis

A música e a personalidade de João Gilberto se tornam menos misteriosas

É muito comum ver gente metendo pau em um artista não porque sua produção musical seja ruim, mas porque o alvo em questão não é "simpático" aos olhos do público. Este é o caso de João Gilberto, por exemplo.

Por isto, é interessante que, na mesma época em que o controverso e incensado compositor/violonista/cantor comemora 81 anos, você dê uma lida atenta em João Gilberto, uma obra lançada recentemente e que, de modo intencional, se afasta dos aspectos mais peculiares da esquisita personalidade do artista. Nela, o foco é redirecionando para a inquestionável importância musical que ele tem, por meio de uma compilação de uma série de textos organizada por Walter Garcia, professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, com a coordenação dos editores Milton Ohata e Augusto Massi.

Capaz de identificar semitonações nos momentos em que ninguém percebe isto, ele é daqueles personagens dos quais é impossível deixar de contextualizar sua musicalidade na história da MPB. Mas não pense que estou aqui para celebrar a pretensa "genialidade" de João Gilberto. "Gênio" é uma palavra muito forte para ser endereçada a ele.

Reconheço que é possível dizer que a música brasileira teria sido diferente se João não tivesse ganhado um violão aos 14 anos. Disto eu não tenho dúvida. Da mesma forma, concordo que a partir do momento em que o público brasileiro tomou contato com o disco Chega de Saudade, lançado em 1959, todos os conceitos de "cantar bem" criado por luminares "vozeirões" como Silvio Caldas, Francisco Alves e outros famosos cantores do rádio na década de 50 foram varridos para debaixo do tapete do mapa musical brasileiro.

Embora o que João tenha disseminado pelo Brasil e até mesmo pelo mundo já tinha sido mostrado timidamente por ele mesmo no disco de Elizeth Cardoso do qual participou, Canção do Amor Demais, foi a partir de seu primeiro LP como "artista solo" que sua antológica batida de violão se tornou lendária, na qual deslocava o acento da tradicional batida de samba, usando os contratempos dentro do compasso 2/4 e inserindo acordes tradicionais do "jazz west coast" americano da época.

E é justamente aí que está um outro lado da questão. Eu, por exemplo, sou daqueles caras que defendem a tese de que todo aquela turma de artistas — o chamado "pessoal da bossa nova" - veio de uma grande parcela da classe média carioca que, por uma série de motivos econômicos e sociais, era fanática pelo jazz americano na segunda metade dos anos 50. E foi justamente por encaixar o seu violão na harmonia jazzística americana e tendo como base rítmica algo que se aproximava do "sambinha" que João acabou por cativar um público ávido por se aproximar do desenvolvimento cultural propagado pelos Estados Unidos naquela época. Foi por conta disto que o sucesso de João se tornou quase instantâneo.

Tantos artistas pós-Bossa Nova demonstraram ao longo da carreira uma inequívoca afinidade com a música de João — Caetano Veloso e o saxofonista americano Stan Getz são os nomes mais fortes em minha mente neste exato momento — que é impossível não lembrar também que foi ele o responsável por divulgar nacionalmente alguns jovens compositores da época, como Roberto Menescal e Carlos Lyra, que por sua vez influenciaram uma série de outros artistas, como Djavan e Ivan Lins, por exemplo.

Sim, todo mundo sabe que João é uma pessoa de dificílimo trato, já que suas esquisitices, neuroses e manias extrapolam os limites do bom senso, mas são tantas as piadas a respeito disto — como a história de que seu gato cometeu suicídio, por exemplo -, que a maior parte do público passou a se ligar em suas excentricidades e loucuras, esquecendo completamente da boa música que ele produziu ao longo da carreira.

João foi um dos artistas que mais se preocupou com o fato de que as pessoas precisam se sentar mais para ouvir música com mais atenção. Para uma época em que descerebrados não se incomodam em ouvir música em pé, no meio de multidões a entupir gigantescos estádios, isto é papo de tiozinho maluco. Só que não é...

Isto talvez explique porque, por mais tranquilo que possa parecer na hora em que está cantando com a voz pequena e sutil que ele copiou do trompetista Chet Baker — sei que vai ter leitor esperneando e me xingando a valer por causa disto, mas já vou avisando que não estou nem aí e que a verdade precisa ser dita e escrita -, João foi e ainda é personagem de inúmeras confusões, que não raro se transformaram em brigas e incontáveis cancelamentos de shows.

Por isto, para entender a personalidade confusa e hesitante de João Gilberto, sugiro que você leia também o ótimo Chega de Saudade, de Ruy Castro. Assim você vai entender que houve outro personagem importantíssimo na jornada de João Gilberto: Tom Jobim.

Mas aí já é outra história...

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