Na Mira do Regis

Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Djavan mancham suas biografias com pedidos de censura

Eu até entendo que as pessoas mudam a sua maneira de pensar conforme vão envelhecendo e que muitas vezes estas mudanças acabam levando a gente a uma direção, digamos, mais conservadora. Eu mesmo tenho opiniões a respeito de certas coisas bem diferentes daquilo que pensava quando tinha 25 anos de idade. Normal. Isto acontece porque amadurecemos ou porque tivemos experiências na vida que levaram a este redirecionamento. Sem problemas e sem grandes encucações, somos hoje aquilo que vivemos no passado. Simples assim...

Mas confesso que fiquei absolutamente estarrecido ao ler que como se não bastasse a atitude espúria e calhorda que o incensado Roberto Carlos teve ao processar o autor de uma brilhante biografia a seu respeito – que, inclusive, era um de seus fãs mais ardorosos -, agora outros artistas se uniram ao pretenso “rei” (é, com minúsculas e entre aspas mesmo) para que a partir de agora qualquer biografia tenha a prévia autorização do biografado. Para piorar ainda mais esta história, os tais “artistas” são pessoas que passaram grande parte de suas carreiras sendo... censurados!

Acredite se quiser: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Djavan agora são colegas de Roberto Carlos em uma campanha que exige que qualquer livro a respeito da vida e obra de quem quer que seja tenha a bênção oficial e “chapa branca” do personagem principal da obra. É um absurdo tão grande que não há outro termo a se empregar aqui: é censura. Ponto. Sem contestação.

Ainda hoje está viva em minha cabeça a atitude asquerosa de diversos biografados e de seus descendentes, que impediram judicialmente a circulação de livros brilhantemente escritos. O caso mais notório é o do próprio Roberto Carlos, que processou o autor da estupenda biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita de maneira soberba, reverente e, acima de tudo, verdadeira por Paulo Cesar de Araújo, um dos mais completos admiradores do tal “rei”, alegando que o livro “invadiu a privacidade do cantor”. Um descalabro não menos revoltante que a proibição da circulação de livros espetaculares como Lampião - O Mata Sete, de Pedro de Morais, Noel Rosa - Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, e Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa, de Alaor Barbosa.

É difícil acreditar que caras que foram censurados e perseguidos pela ditadura – que até já formaram um grupo, chamado “Procure Saber”, presidido pela esposa de Caetano, a produtora Paula Lavigne - passem agora a ter uma atitude tirânica a respeito do que deve ou não ser escrito a respeito deles. Djavan foi mais longe e deu uma declaração completamente desastrada. Vou reproduzir aqui para você sentir o drama:

“A liberdade de expressão, sob qualquer circunstância, precisa ser preservada. Ponto. No entanto, sobre tais biografias, do modo como é hoje, ela, a liberdade de expressão, corre o risco de acolher uma injustiça, à medida em que privilegia o mercado em detrimento do indivíduo; editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação. Nos países desenvolvidos, você pode abrir um processo. No Brasil também, com uma enorme diferença: nós não somos um país desenvolvido”.

Não é à toa que ninguém entende porra nenhuma das letras deste sujeito. Como pode álguem escrever que a liberdade de expressão deve ser preservada a todo custo e logo em seguida tentar justificar a censura? O que é isto? Bipolaridade, "encosto" ou apenas um ‘discursinho’ para boi dormir? E ainda por cima diz que o Brasil não é um país desenvolvido juridicamente e que biógrafos e editores malvados ganham rios de dinheiro, enquanto os biografados são relegados à miséria e humilhação... Que porra é esta? Em que realidade paralela ao mundo real o Djavan vive?

É evidente que o autor de uma biografia que escrever uma merda gigante e não puder provar os fatos relatados no livro deve ser processado pela lei. Ninguém discute isto. A mesma coisa se for comprovada JUDICIALMENTE que houve alguma ofensa ou abuso por parte do escritor e da editora. Agora, querer que o mercado editorial seja o paraíso das biografias “chapas brancas”, boazinhas e condescendentes com o biografado, é canalhice explícita.

A História de um país tem que ser contada também por meio das biografias de suas personalidades públicas, mesmo que estas tenham sido ou sejam um poço de contradições, erros e vergonhas. Quem não quiser participar da vida pública de uma nação em todos os campos – artísticos, políticos, sociais e o que mais existir – que se contente em viver fritando hambúrgueres na chapeira de uma lanchonete.

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