Remix

Capital Inicial faz show energético e visceral em São Paulo

O show do Capital Inicial é, sem dúvida, o melhor e mais contagiante da atual música brasileira. É mais poderoso do que injetar energético na veia, caso isso fosse possível. Essa é a conclusão a que se pode chegar após as quase duas horas de apresentação realizada nesse sábado, 11 de fevereiro, no Credicard Hall, em São Paulo.

Fotos: Viviane Portela

Dinho Ouro Preto é um showman como poucas vezes se viu na música brasileira. Ele aparenta estar o tempo todo muito feliz em cima do palco e dá ao seu público muito mais do que ele gostaria. Salta duas vezes em cima da plateia, sem medo de cair — basta lembrar que em 2009, ele sofreu um grave acidente que o deixou afastado durante alguns meses —; conversa várias vezes com o público; elogia a cidade de São Paulo, na qual vive há 27 anos; e pede para todo mundo gritar "do caralho".

E o público, que mistura pessoas de diferentes faixas etárias, responde à altura, lotando uma das mais prestigiadas casas noturnas de São Paulo, com cerca de 6 mil pessoas, segundo Dinho Ouro Preto, e mais berrando do que cantando cada uma das canções, além, é claro, dos gritos elogiosos ao vocalista. Um deles é o de Livia Kato, de 17 anos, que se espreme junto à grade e canta decór todas as músicas de sua banda preferida. As que mais a entusiasmam são "Natasha", "Veraneio Vascaína" e "Primeiros Erros", de Kiko Zambianchi. "Eu adoro Capital Inicial. Vi o show do Rock in Rio em casa e achei maravilhoso", garante a menina.

Livia começou a ouvir a banda em casa por influência dos pais que devem ter mais ou menos a idade de Dinho Ouro Preto, que, diante dela e de todos os outros presentes, chacoalha uma bandeira do Brasil; aparece com chifrinhos na cabeça e segurando uma arma de brinquedo; joga água e se preocupa com quem está nas fileiras da frente. Também guarda cada um dos objetos arremessados no palco e brinca com eles — "vocês já jogaram 3 sutiãs, 1 meia e 1 camiseta. Já entendi que vocês querem ficar pelados". Mais próximo do final, ele comemora a primeira calcinha e declara que só pode ser uma homenagem ao Wando.

As referências ao universo pop também são evidentes. Dinho Ouro Preto pega uma garota da plateia para cantar e tirar fotos com ele, como gosta de fazer o líder do U2, Bono Vox. Menciona Bob Marley. Brinca com um garoto do público que usa uma camiseta do Led Zeppelin. Mostra a língua ao receber de outro fã uma camiseta do Kiss. Canta um dos hinos punks — "Should I Stay Or Should I Go", do Clash, com a letra aparecendo no telão como se fosse um fanzine. E, em "Primeiros Erros", faz uma espécie de nova versão de uma brincadeira clássica de John Lennon: "Todos com as mãos para cima como se fosse um assalto coletivo. Agora vão passando relógios e carteiras aqui para frente".

Também faz um discurso ecológico ao dizer que "Como Devia Estar" trata do que restou das nossas florestas. E defende o voto nulo, em nome dos "brasileiros que não se sentem representados por ninguém" e pede para que não se confie num político, pois o poder corrompe a todos, independentemente de linha ideológica e partido. É o mote ideal para cantar "Que País É Este", da Legião Urbana, a qual homenageia também por meio de uma camiseta com a capa do álbum "As Quatro Estações" e, no final apoteótico, ao cantar a capela "Por Enquanto".

Mas o show do Capital Inicial não vale apenas pela performance e o carisma de Dinho Ouro Preto e a relação visceral que estabelece com a galera. A banda, formada por Flávio Lemos (baixo), Fê Lemos (bateria), Yves Passarell (guitarra), Robledo Silva (teclado) e Fabiano Carelli (guitarra e violão), é extremamente competente ao destilar clássicos de diferentes fases, desde as trazidas do repertório do Aborto Elétrico — "Música Urbana", "Fátima" e "Veraneio Vascaína" — até as mais recentes, como "Eu Quero Ser Como Você" e "Vamos Comemorar", que é cantada duas vezes para a gravação de um vídeo.

Eis uma prova cabal, portanto, de como o showbusiness pode ser eficiente, ao misturar diversos atrativos, como bolas que caem do teto, placas de LED espalhadas pelo palco e telão projetando imagens de acordo com cada canção; com a comunicação direta com o público, que é convidado a escolher a primeira canção do bis por meio de mensagem SMS. "O Passageiro" vence "Ressurreição" e "Algum Dia", e cinco participantes são escolhidos para conhecer a banda no camarim, com acompanhante. Mas, mais do que isso, é a confirmação de que, apesar de atrações e pirotecnias, um grande show se faz mesmo é com uma banda afiada, talentosa e que demonstra o imenso prazer de estar diante do público, tentando reduzir ao máximo a distância que os separa.

Setlist

Como Se Sente
Independência
Quatro Vezes Você
Natasha
Depois da Meia Noite
Como Devia Estar
Vamos Comemorar
Primeiros Erros
Não Olhe Pra Trás
Fogo
Should I Stay Or Should I Go
Música Urbana
Fátima
Veraneio Vascaína
Mulher de Fases
O Mundo
Que País É Este
A Sua Maneira

Bis

O Passageiro
Quero Ser Como Você
Todas As Noites
Vamos Comemorar
Por Enquanto

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