Remix

Memória Clipe – Ricardo Spencer, o diretor das lembranças afetivas

O videoclipe "Que bloco é esse?", que uniu o cantor paulista Criolo ao grupo baiano Ilê Aiyè e estreou no último sábado, 28 de janeiro, leva a assinatura do diretor baiano Ricardo Spencer, de 35 anos. Após passar por duas bandas de rock na terra-natal Salvador, Jupiterscope e Mutation Lab, ele se tornou conhecido pela direção de videoclipes de artistas como Pitty, Cachorro Grande e CPM 22. "Eu sou neto de uma atriz que era a primeira dama do teatro baiano, Nilda Spencer, e sempre me incentivou muito no mundo das artes. Tive experiências incríveis ao lado dela, vendo-a ensaiar e junto com artistas, o que me enriqueceu muito culturalmente. Também sempre fui um aficionado por música e frequentador assíduo de shows de rock. Parecia perfeito juntar cinema e música", garante.

"Uma característica minha é fazer videoclipes fugindo da estética frenética e indo para uma linguagem mais cinematográfica, que é mais minha formação. Por isso, faço planos longos, como no início de 'Déja Vu', que tem trinta segundos e sem cortes, o que foge do padrão", analisa. Com relação ao método de trabalho, Spencer prefere não ouvir a ideia da banda antes de escutar a música e escrever o roteiro. "Daí eu brinco com a sugestão da banda e com a minha peça. Quando o artista já vem com a ideia pronta, pode afetar o processo criativo", acrescenta.

Estudante de cinema da UCLA (University of California, em Los Angeles), Ricardo Spencer foi entregador de comida nos Estudos Unidos e prepara um livro de contos a respeito dessa experiência. Também atuou como assistente de direção nos longas-metragens "Cidade Baixa" (2005) e "Quincas Berro D'Água" (2010). Agradecendo a força dada pelo também diretor Mauricio Eça e Raul Machado, ao chegar em São Paulo e se declarando apaixonado pelo "vintage", o realizador indica abaixo as produções mais marcantes das cerca de 35 que acredita ter realizado.

Brincando de Deus - Spleen. 2004

Típico clipe de iniciante, utilizando a banda preferida entre os amigos. Usamos uma câmera vhs do pai do baixista Dalmo, e editei com dois vídeocassetes, no play/rec/pause. Como tudo tinha que ser de graça, usamos de locação uma boate em construção já com luzes instaladas e uma cadeira de rodas como travelling. Para o meu azar, toda a edição foi por água abaixo quando Dalmo resolveu inserir uma imagem minha ao final do clipe, tirando tudo de sync.

     

Memórias — Pitty, co-dirigido com Alexandre Guena. 2005

Para quem havia pedido pra Pitty, minha amiga desde os 15, apenas para trabalhar como assistente nos seus clipes, ganhar a direção logo após me mudar para São Paulo não foi nada mal. Ainda mais quando o clipe leva o VMB e Prêmio Multishow de 2006 na categoria clipe do ano. Meu primeiro clipe com um bom orçamento e que nos proporcionou trabalhar com grandes nomes como Carlos Ebert, diretor de fotografia de "O Bandido da Luz Vermelha".

     

Déja Vu - Pitty. 2005

Momento em que o videoclipe passou a fazer parte da minha vida, já diversificando as linguagens, e trabalhando mais com o cinema. "Déjà Vú" é muito especial pra mim, e é uma visão sobre a impessoalidade de grandes centros. Numa referência ao Flautista de Hamelin, o clipe ainda consegue terminar positivamente, mesmo com a carga da locação (Rua Aurora) e todas as tentativas de sabotagem por parte dos traficantes da cracolândia, deixando de lucrar, uma vez que a produção do clipe dominava as ruas.

Acerto de Contas - Sangria. 2006

Meus amigos de longa data me convidaram pra fazer este clipe, cuja música era baseada em fatos reais, quando numa discussão de trânsito, o irmão do vocalista foi baleado, felizmente sobrevivendo. Muito especial este também, que conta com a atuação de minha avó Nilda e outro grande ator baiano, Wilson Mello. Utilizando flashbacks e surrealismo, foi gravado nas ruas do centro histórico de Salvador.

Bom Brasileiro - Cachorro Grande. 2006

Já gostava dos caras do Cachorro Grande antes de conhecê-los, o que aconteceu assim que cheguei em São Paulo, pois já eram grandes amigos dos baianos paulistanos. A idéia veio deles, simples assim: "Filma nóis chumbando em Copacabana!". Acabou acontecendo em Ipanema, num dia nublado, o que fez toda a diferença nesse pequeno cult que tanto gosto. Filmado com a Super 8 de 1971, presente de minha avó.

Pernambuco Chorou - Terminal Guadalupe. 2007

Fui contratado por uma banda que não conhecia, de curitibanos gente fina. Conheci o ator, Santos Chagas, também em Curitiba, e ele fez toda a diferença do clipe. Roteirizei no caminho pra cidade e após visitar a locação, uma cadeia destivada. Flashbacks, flashforwards e fantasia fazem deste o meu roteiro mais complexo.

Roda Gigante - Cachorro Grande. 2007

Novamente com a Super 8 em mãos, desta vez partimos para a cidade onde ficava localizada a fazenda da família de Marcelo Gross, o guitarrista da banda, na fronteira com o Uruguai. O clima do lugar e o povo local fez com que o roteiro que fosse sendo feito na hora e tendesse para algo sobrenatural, onde o lugar continua e vidas começam e acabam por ali.

Nossa Música — CPM 22. 2008

Curta urbano sem banda, que fala sobre desencontros. A opção pela noite e o cenário do Minhocão acentuam o vazio. Os anônimos em suas ações individuais e solitárias, permeiam o casal recém-separado. E o desencontro é mostrado quando, apesar de muito próximo, o casal não se vê.

Só Agora - Pitty. 2010

Pitty havia sonhado com um momento de felicidade entre amigos. Se é sonho, é hora de ativar a Super 8. O resultado é essa colagem de momentos de um dia especial. Clima vintage e referências da época citada. 1976.

Addictions - The Cigarretes. 2011

Fiz esse videoclipe da banda carioca The Cigarretes, inspirado na estética dos screen tests (realizados pelo artista pop Andy Warhol, entre 1964 e 1966). Ou seja, só com um cara olhando para a câmera e fumando, em preto e branco.

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